Mamãe está aproveitando a licença maternidade para fazer várias coisas que há muito queria. Nesses meses assisti a inúmeros filmes, seriados, documentários, li bastante, muito sobre bebês : ) e agora estou passeando por meus diários.
Comecei a escrevê-los quando tinha 9 anos e estou surpresa ao perceber como foi (e como é) dura a vida de criança.
Muitas pessoas não concordam. Guardam com saudade uma imagem idealizada de que a melhor fase da vida é a infância.
Muito do que somos hoje, muitas das nossas feridas, condicionamentos e preconceitos que nos impedem de viver uma vida mais plena vêm desse período tão turbulento.
Durante a infância, enquanto eu buscava a minha identidade, foi frequente o sentimento de abandono, inadequação, de medo, solidão e a sensação – verdadeira ou não - de que eu não era compreendida.
Lembro-me de que, por medo e por obediência, dizia “não” quando queria dizer “sim” e dizia “sim” quando queria dizer “não”. Acreditava que não poderia ser eu mesma sob pena de não ser amada, de não ser aceita.
Era uma menina obediente e comportada, mas é claro que tinha meus momentos de rebeldia e agressividade. No geral seguia o script e as regras impostas. Regras que não eram minhas - e eram muitas!
Desde muito pequena eu e minhas irmãs éramos responsáveis por várias tarefas como fazer a própria cama, varrer o quintal, molhar as plantas, fechar as janelas da casa, lavar vasilhas, esquentar o jantar para o vovô Louwerens, lavar alface – ha ha, isso até virou lenda na família.
Eu tinha horário fixo para dormir – e tinha que ir estando ou não com sono, dia e hora certa para ver televisão e o refrigerante só era permitido uma vez ou outra. Balas e chicletes? Nem pensar!
Não estou dizendo que não tive uma infância feliz ou que faltou afeto. Pelo contrário! Sempre morei em casas com muitas árvores e quintais povoados por gatos, cachorros, passarinhos e outros tesouros.
Subia nos telhados e nas árvores, brincava na rua, tomávamos “banho de mangueira”, acampava com frequência, mas sonhava em crescer e não depender mais de tudo e de todos. Sonhava com a liberdade de viver minhas próprias regras e sonhava com o momento em que me tornaria responsável pelos meus erros e acertos.
O mundo exige muito das crianças. Quando aprendemos a rolar, esperam que nos sentemos e mal começamos a engatinhar, já existe a ansiedade e a expectativa para que arrisquemos os primeiros passos, as primeiras palavras e por ai vai. A lista não tem fim...
Esperam que sejamos educados, inteligentes, contidos e delicados como são - ou pelo menos como deveriam ser - os adultos.
É claro que não estou aqui defendendo a falta de limites e a permissividade tão comum nos dias de hoje.
Regras devem ser impostas não apenas para que a criança aprenda a fazer parte da engrenagem social, mas também para evitar que se machuque com sua natureza espontânea, desmedida e ingênua.
Nesse sentido, as regras são muito bem vindas sendo necessárias e imprescindíveis. O difícil é administrar a vontade de ser livre e autônomo com a vontade se ser protegido, cuidado e amparado.
Meu pequerrucho, queria que você soubesse que quando eu assumir o papel da mãe chata, rigorosa, exigente e autoritária, saiba que será por amor.
E nas inúmeras vezes em que eu errar ou exagerar, saiba que o intuito é de proteção, de guiança, da mesma forma que seus avós fizeram conosco.
Dinda Lina,
ResponderExcluirSabe o que achei em um dos diários?
O mapa do tesouro da casa da Getúlio Vargas traçado por vc e Lu Malta com a caverna da cinco caveiras, o vulcão maldito, a casa do tigre preguiçoso e o baú com o tesouro que eram balas chita e pirulito campeão.
Hoje reconheço que foi boa a proibição de vermos televisão durante a semana. Por mais que ficássemos por fora do assunto na escola, fomos forçadas a nos virar e ser muito criativas para preencher o tempo.
E o refrigerante também não fez tanta falta, não é?